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23-03-2005

Co-incineração – uma teimosia e uma coerência


Marcelo Rebelo de Sousa

Há que explicar que teimar na co-incineração não é prova de coerência, é prova de obstinação. Não demonstra independência do poder, sabe a capricho. Não revela coragem de afrontar «lobbies», vai de encontro às boas graças de grupos empresariais. 1. Parece mentira, mas não é. Saía eu do meu banho no mar diário – sempre à hora do almoço, entre aulas de manhã e aulas à tarde, salvo ao fim-de-semana, em que separa uma boa corrida e um frugal almoço –, eis senão quando deparo com o querido amigo Adriano Lucas, num dos seus passeios domingueiros ao longo do paredão. Foi anteontem. O inesquecível companheiro na feitura da Lei de Imprensa – já lá vão 31 anos! – surpreendeu-me pela sua boa disposição, juventude de comentário e perene alegria de viver. E prometi-lhe, de imediato, uma hora para o «Diário de Coimbra» – e associados – grato que estou por uma leitura quotidiana que me alimenta o espírito e estimula a curiosidade por tudo quanto se passa em terras do Mondego. Aqui vai a prosa, com um dia de atraso. 2. O Primeiro-Ministro José Sócrates tem rodeado de particular preparação todos os passos dados no arranque do seu Governo. Discrição nos convites. Travão à habitual loquacidade dos novos governantes. Escolha cuidadosa das palavras ditas. Gestão milimétrica da imagem. Precaução nas promessas. Procura do senso nas posições. Não quer isto dizer que não haja vazios, convites, pontos fracos no discurso político assim tão meticulosamente ensaiado. Mas significa que é como um daqueles alunos que não improvisam nem arriscam à toa, estudam a sua matéria, jogam no seguro, preferem alguma consistência, ao menos formal, nos rasgos aleatórios de um instante de emoção, de arrebatamento, de inspiração. 3. A esta luz, o insólito são as excepções, a saber aquelas teimosias, inércia do passado guterrista, e que fogem à lógica da arquitectura na global do discurso socrático. Duas das mais óbvias são as SCUT e a co-incineração. As SCUT – uma teimosia sem justificação. Nem financeira. Nem social. Nem ética. E que ainda vão obrigar a elevação de impostos, obrigando não utentes a pagar pelos utentes. O que é especialmente censurável nas SCUT do litoral. A co-incineração – outra teimosia sem fundamento. Nem técnica. Nem social. Nem ética. E digo-o com o à vontade de ter apoiado Sócrates – ministro a impor no meu município de Celorico de Basto um aterro sanitário que nenhum dos outros municípios utentes queria, contra a população e até os seus correligionários socialistas. 4. A co-incineração não é a única técnica. Não é a melhor técnica. Não é a mais justa e sensata, em particular nos termos em que foi definida anos atrás, durante a governação guterrista. A sua repescagem hoje, descontado o compreensível aplauso empresarial dos beneficiários com esse fácil lucro adicional, é uma questão de pura teimosia. Eu quis e não fiz. Vocês não quiseram e empataram jogo. Eu, regressado ao poder, vou fazer o que não pude concretizar três ou quatro anos atrás. 5. Perante esta teimosia, que foge a toda a lógica do discurso socrático, é compreensível e é louvável a coerência do «Diário de Coimbra», ao combatê-la com a mesma vivacidade com que a denunciou na viragem do século. Há que sugerir que o processo seja repensado, explorando-se outras vias e fórmulas. Há que recordar os óbices técnicos, sociais, sanitários e outros. Há que explicar que teimar na co-incineração não é prova de coerência, é prova de obstinação. Não demonstra independência do poder, sabe a capricho. Não revela coragem de afrontar «lobbies», vai de encontro às boas graças de grupos empresariais. 6. Admitir erros é também sinal de autoridade cívica e moral. Não diminui ninguém, só o engrandece. E só prestigiaria José Sócrates reponderar aquelas teimosias que, erradamente, confunde com coerência e coragem política. É certo que é aí que os alunos cuidadosos, de lição bem preparada, que proferem não falhar a correr riscos têm mais dificuldade em conceder, em repensar, em alterar rumos. Mas ninguém lhes pede que alterem todo o seu esquema de trabalho, ou abram fissuras na sua construção circular, defendida contra passos arrojados ou iniciativas de efeitos imponderáveis. Só se lhes pede que parem um minuto para reapreciarem fixações, inércias, ideias feitas, que ilusoriamente, converteram em bandeiras inexpugnáveis, soluções dogmáticas e indiscutíveis. Quererá o cuidadoso José Sócrates correr o risco – que, verdadeiramente, é um não risco – de parar um minuto e reapreciar a sua teimosia quanto à co-incineração? Marcelo Rebelo de Sousa

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