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NOTÍCIAS |  | | 13-03-2005
| «Achamos que este álbum ainda é melhor conseguido»
| | EZ Special |
| | Fernando Tavares (bateria), Ricardo Azevedo (voz e guitarra acústica) e Mário Sá (guitarra) são o corpo e a alma da banda Ez Special. Os três de Santa Maria da Feira celebrizaram-se através da canção «La la la la la uhh!» do seu primeiro álbum «In n’Out», mas o seu segundo trabalho discográfico – «Leitmotiv» – já anda nas rádios e na televisão a mostrar que são um caso sério na música portuguesa
«Leitmotiv» já está a passar nas rádios e nas televisões mas «Daisy» será sempre o nome da música que tornou conhecidos os EZ Special. Como reagem quando ainda vos identificam como a banda do «La la la la la uhh!»?
É um orgulho tremendo. Temos consciência que esta canção atingiu uma dimensão enorme, e que tal só foi possível porque milhões de pessoas conseguiram identificar-se com a canção, e perceberam que nela havia um sentimento muito honesto.
«Leitmotiv» é o vosso segundo álbum de originais. Que diferenças apresenta em relação ao primeiro («In n’Out»)?
O primeiro álbum foi muito bem recebido pela crítica e pelo público. Mesmo assim, achamos que este álbum ainda é melhor conseguido. É habitual que os artistas digam estas coisas… Mas é verdade! A base continuam a ser as canções, para ambos os discos, mas hoje beneficiamos de toda a fantástica experiência acumulada com os espectáculos ao vivo, e em estúdio.
As canções de «Leitmotiv» são agradáveis, simples, compostas com cuidado, bem interpretadas. Donde vem a inspiração?
Nós somos pessoas simples, e nem sequer nos encaixa na cabeça como é que alguém, em Portugal, pode ter acessos de vedetismo… Também temos uma enorme paixão pelo que fazemos. Isso obriga a que tenhamos sempre uma grande dose de humildade… E tentamos que as nossas canções sejam assim mesmo, um reflexo de quem somos, do nosso quotidiano. Abordam as alegrias, as tristezas, as paixões, enfim, cada canção é um retalho do dia-a-dia.
Donal Hodgson, que acabou de gravar o último álbum de Sting foi um dos produtores do vosso «Leitmotiv». Como foi a experiência de trabalhar com alguém que já trabalhou com Tina Turner, Primal Scream ou Happy Mondays?
Nós temos gosto em estar sempre a aprender. E temos tido sorte, porque temos trabalhado com pessoas que, à partida, seriam inatingíveis para um grupo português. É interessante, mas às vezes é mais fácil receber um elogio sincero de estrangeiros com créditos firmados a nível mundial, do que dos próprios portugueses… Talvez isto seja porque o país é muito pequenino, e torne difícil acreditar que o que os portugueses fazem é tão bom, ou ainda melhor, do que aquilo que vem de fora. Estas pessoas têm-nos dado muitas lições, inclusivamente esta.
A masterização foi feita nos Metropolis Studios, em Londres, por Ian Cooper, responsável pelo fabuloso «Sledgehammer» de Peter Gabriel ou pelo grandioso «Relax» dos Frankie Goes to Hollywood. «Leitmotiv» é um álbum produzido ao mais alto nível?
Foi para nós ponto assente que tentaríamos gravar um álbum do qual nos viéssemos a orgulhar no futuro. Só assim faria sentido, porque o que nos move é a música, e não um qualquer sucesso que, por maior que seja, é sempre superficial e passageiro. Não temos hoje qualquer espécie de problemas em afirmar que nos orgulhamos deste disco, e que é um dos melhores alguma vez gravado em Portugal. À partida, seria difícil de imaginar que estas pessoas, com tanto sucesso – e tanto dinheiro – viessem a querer trabalhar connosco. Foi a nossa música que os convenceu, e foi por acreditarem que os EZ Special gravariam um excelente disco que aceitaram os convites que lhes dirigimos.
«My Explanation» é a primeira faixa do álbum e entrou nos ouvidos dos portugueses ainda antes do disco editado pela Universal. Por que escolheram este tema para o single?
É curioso, mas nós achamos que, na vida de todas as pessoas, não são os grandes problemas que dão muito trabalho a resolver, mas antes os inúmeros pequenos problemas com que nos debatemos no nosso íntimo. Esta canção fala sobre isso, de uma forma muito simples, e achamos que poderia ser uma boa amostra para o que é o nosso disco, também muito simples, muito íntimo e pessoal.
Em cinco anos de carreira, os EZ Special conseguiram passar nas rádios e estar na televisão, para além de inúmeros espectáculos ao vivo? Qual é o segredo?
Efectivamente, não existe um segredo. Nós somos afortunados, porque o que nos motiva não é isso. Já fazemos música desde que somos muito jovens, e a maior parte desse tempo no anonimato. Nunca deixamos de fazer canções, apesar de sermos desconhecidos do público. Achamos que tivemos a sorte de o público ter apreciado as nossas canções… Se não fosse escolha do público, não teríamos tido hipótese…
Como nascem as canções (letra e música), consideradas fortes, por exemplo por Saul Davies (dos James)?
As canções dos EZ Special são compostas com naturalidade. É um processo muito instintivo e espontâneo… Orgulha-nos muito que haja pessoas como o Saul Davies, que já venderam milhões e discos, fizeram tournées mundiais, e escreveram músicas que se tornaram fenómenos à escala planetária, digam tão bem de nós. Mas, de certa forma, ainda não conseguimos entender porque é que a nossa música é tão especial… No fundo, o que é especial são os sentimentos que a motivam, e os sentimentos que ela evoca, e esses são comuns a todas as pessoas… As nossas canções não passam disso, sentimentos musicados, da melhor forma que o conseguimos fazer, e como não controlamos os nossos sentimentos, não existe, de facto, uma outra explicação para o surgimento das letras e da melodia.
Algumas das vossas canções já integraram a banda sonora de novelas portuguesas e serviram de base a anúncios. Que importância tem este tipo de utilização da vossa música?
É tão bom, quando milhões de pessoas conseguem cantar uma música nossa! Tem-se a sensação que um pouco de nós está a passar para os outros, que lhes estamos a proporcionar algo… É dessa forma que encaramos essa exposição, como um veículo para as pessoas.
Em vosso entender, de que modo é que outras bandas portuguesas podem conseguir que a sua música seja utilizada em novelas e anúncios?
Parece-nos que, em Portugal, já se está a perder um pouco do preconceito que existe perante a Pop. Têm surgido bons discos, como é o caso do Gomo, Fingertips, Toranja, ou David Fonseca, em que se privilegiam as melodias e o formato de canção. Este talvez seja o denominador comum, o facto de que as canções conseguem transmitir algo às pessoas que é mais difícil de fazer com músicas num formato menos convencional e apelativo. É evidente que tem de haver o talento para escrever as canções, e lutar para ultrapassar as dificuldades que se colocam perante os artistas em início de carreira, pelas quais todos passam. Mas é muito importante que as pessoas acreditem na música que fazem, e que saibam entender que a substância de uma canção tem muito mais importância que qualquer preconceito ou qualquer moda.
«Manifesto» é um trabalho (editado no início de 2004) que chamou a atenção do público para alguns problemas com que se debate a indústria musical portuguesa. Querem recordar os vossos propósitos? E os problemas (quais são? Mantêm-se?)?
Mantemos tudo. Há muita desinformação, e muitas tomadas de posição unilaterais. Por exemplo, aponta-se um dedo acusador às rádios, mas está-se a provar, cada vez mais, que as rádios passam os artistas portugueses que têm qualidade. Não temos a solução para os problemas com que se debate a música portuguesa, ou a indústria discográfica, mas sabemos que esta só pode ser encontrada se analisarmos, sem complexos, o papel de cada um dos intervenientes. A música deve ser também usada para dar um exemplo aos mais novos, às gerações do futuro, pelo que tem uma responsabilidade acrescida, pela sua forte expressão cultural.
Coimbra recebe a vossa visita, para uma sessão de autógrafos, no próximo dia 18. Por que privilegiam esta forma de contacto com os fãs (mais habitual em livros do que em discos...)?
Nós gravamos este disco para aqueles que, como nós, gostam de boa música. Também para aqueles que apreciam a música que é feita por artistas nacionais. Não nos encaramos como superiores aos outros, só porque temos algum reconhecimento pelo nosso trabalho. Antes pelo contrário, sentimo-nos honrados pelo carinho que nos dão, e é um prazer poder contactar directamente com aquelas pessoas que justificam que ainda haja artistas em Portugal.
Qual é o caminho que veremos os EZ Special a trilhar nos próximos anos?
Não sabemos, sinceramente… Talvez o mesmo de sempre. Se tivermos saúde para isso, vamos continuar a compor, a actuar ao vivo, e a gravar novas músicas. Não será o sucesso, ou a ausência dele, que nos irá demover de fazer aquilo que nos define, que é sermos músicos. Isso sempre seremos, porque há coisas que não se fazem, e outras que nada destrói. O reconhecimento, ou o sucesso, não depende de nós, mas sim do público. A escolha é sempre do público.
Noémia Malva Novais |
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