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NOTÍCIAS |  | | 09-03-2005
| Labaredas ameaçaram pessoas e habitações
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| | Um incêndio de grande intensidade devorou diversas zonas da mancha florestal do concelho de Albergaria-a-Velha e lançou o pânico em algumas localidades, onde o fogo ameaçou algumas casas
O incêndio de grandes proporções que ontem lavrou no concelho de Albergaria-a-Velha chegou a ameaçar habitações, nomeadamente no lugar do Nobrijo, situado na encosta nascente da freguesia da Branca. As chamas começaram a subir a encosta ao entardecer de segunda-feira e, sem que nada o fizesse prever, ameaçaram habitações na madrugada de ontem. Viveram-se momentos de aflição no lugar do Nobrijo, na freguesia da Branca, com os habitantes a serem forçados a abandonar os seus haveres, a meio da noite, com os filhos ao colo.
As chamas andavam por ali, «mas do outro lado do rio», descrevem os populares, mas por volta da uma e meia da madrugada de ontem passaram para a mancha florestal da zona Leste do concelho de Albergaria-a-Velha. As intensas labaredas, nunca antes vistas por aquelas paragens -, iluminavam a noite de tão violentas, colocando em perigo igualmente as casas e as populações dos lugares de Telhadela, na freguesia de Ribeira de Fráguas e as dos lugares de Cardeal e Samuel.
A frente deste inusitado fogo de Inverno abriu-se então em cerca de quatro quilómetros, com dois grandes focos e como o vento soprava com grande intensidade mas em direcções diversas, as chamas foram-se estendendo cada vez mais.
Chamados os bombeiros voluntários de Albergaria-a-Velha, estes tiveram de recorrer ao apoio de mais 12 corporações, num total de 102 homens e 28 viaturas, tendo os bombeiros trabalhado durante toda a noite, conseguindo evitar que o fogo atingisse as habitações. Além dos bombeiros de Albergaria-a-Velha, participaram no combate ao fogo as de Aveiro, (Novos e Velhos), Águeda, Ovar, Oliveira de Azeméis, Estarreja, Murtosa, Esmoriz, São João da Madeira, Vale de Cambra e Vagos e ainda um helicóptero que prestou auxílio aéreo.
O comandante dos bombeiros de Albergaria-a-Velha, José Ricardo Bismarck, referiu ao «Diário de Aveiro», que o fogo «atingiu proporções enormes, criando grandes dificuldades aos bombeiros, que foram acrescidas pelo vento, sendo um facto que de manhã já tinha ardido boa parte da grande mancha florestal do concelho de Albergaria-a-Velha, que é uma das mais significativas da região». O combate ao fogo prosseguiu ao longo do dia, numa zona muito acidentada, o que dificultou ainda mais o trabalho dos «soldados da paz», que tiveram uma noite e um dia que lhes exigiu forte empenho e abnegação.
Rescaldo e alívio
Ao início da tarde, os soldados da Paz puderam respirar de alívio com a extinção da persistente frente do Nobrijo. «O rescaldo está feito mas vamos manter aqui o dispositivo para qualquer reacendimento que possa acontecer», esclarecia Jorge Pereira, comandante dos Bombeiros de Oliveira de Azeméis e que dirigia as operações na chamada frente do Nobrijo/Branca.
Os bombeiros mantiveram-se no local mais algumas horas, «dadas as condições atmosféricas adversas». A seca prolongada, a humidade do ar muito reduzida, os ventos secos a soprar de Leste, a vegetação intensa, porque o mato não é limpo, e muito seca, configuram as condições ideais para uma evolução rápida do incêndio.
Quanto à possibilidade de haver mão criminosa na origem do fogo, Jorge Pereira disse que «todas as situações são possíveis, mas uma coisa é certa: o fogo não nasce por si só e, portanto, terá que ter havido alguma coisa». E acrescentou: «Mas as autoridades é que terão de averiguar e descobrir qual foi a sua origem».
Madrugada de pânico no lugar do Nobrijo
Nobrijo, na freguesia da Branca foi o ponto mais quente do incêndio que lavrou em vários pontos do concelho de Albergaria-a-Velha. Quase ninguém trabalhou durante o dia de ontem no pequeno sítio onde todos se conhecem e onde a solidariedade foi a palavra de ordem durante todo o dia de ontem. Não se falava de outra coisa. Manuel Marques, por exemplo, só teve de tempo de vestir os trapos que estavam à mão, pegar na mulher, na carteira e em mais alguns bens de primeira necessidade e fugir de casa. «Quando acordei, as labaredas já chegavam às janelas do meu apartamento», no primeiro andar de um prédio, edificado junto de um eucaliptal. «Enquanto os bombeiros não chegaram, andámos a atirar baldes de água para evitar que o fogo se chegasse mais», conta ele. Não se via nada, «era só via fragolas e fumo».
Na mesma rua, mas um pouco mais abaixo, Deolinda Valente também viveu momentos dramáticos: «Se não fossem os Bombeiros de Albergaria, não sei o que poderia ter acontecido, porque as chamas estavam a aproximar-se e o perigo era muito», conta ela. Passou a manhã e a tarde de ontem a molhar o terreno circundante e a limpar a cinza dos eucaliptos plantados a escassos metros da casa da filha, uma das mais ameaçadas horas antes pelo cenário dantesco que as gentes deste lugar nunca pensaram ver.
Entre as quatro e as cinco horas da madrugada viveram-se os momentos mais complicados neste lugar: «Tivemos que retirar as crianças de casa, as botijas do gás e outros bens», conta ela, «e depois disso ainda fomos lutar a par com os bombeiros para salvar os nossos haveres».
Ao lado, o vizinho só acordou quando a GNR chegou. Dirigiu-se à janela do quarto e assustou-se: «O fogo estava mesmo aqui em cima», descreve Manuel Ferreira. Um quarto de hora antes da GNR, os bombeiros tinham passado e não se passava nada. «Foi tudo muito rápido», recorda. Foi preciso usar o canhão de água, tal era a voracidade das chamas. «O fumo era tão denso que não víamos um palmo à frente dos olhos». Foi uma aflição tão grande para estas pessoas «estavam a ver que tudo por que lutaram durante uma vida poderia ficar reduzido a cinzas em poucos minutos».
Para este morador, «o mais certo é haver mão criminosa por trás disto, porque custa-me a perceber como é que as chamas passaram do outro lado do rio para cá».
Luís Ventura |
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