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NOTÍCIAS |  | | 07-03-2005
| Situação em São Jacinto é «grave e reflecte o que se passa no país»
| | «Cerca de dois terços da reserva estão invadidos por acácia-de-espigas» |
| | Helena Freitas, directora do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, coordena um projecto que prepara o início de testes de controlo biológico da propagação da acácia-de-espigas. A invasão por esta espécie infestante é um problema que afecta seriamente a Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, em Aveiro. «Cerca de dois terços da reserva estão invadidas por acácia-de-espigas», adverte a investigadora em entrevista ao Diário de Aveiro
É problemática a situação na Reserva de São Jacinto quanto à invasão de acácias?
A situação é grave e reflecte um pouco o que se passa no país. Neste caso, com a agravante de se tratar de uma área consignada à conservação e portanto com responsabilidades óbvias. Cerca de dois terços da reserva estão invadidos por acácia-de-espigas (Acacia longifolia), existindo outras áreas invadidas por erva-das-pampas (Cortaderia selloana) e chorão-das-praias (Carpobrotus edulis). Esporadicamente há outras espécies de acácia presentes (Acacia retinodes, Acacia mearnsii, Acacia dealbata, Acacia melanoxylon, Acacia saligna).
Desde quando se verifica essa situação?
No início do século XX, plantaram acácia longifolia para fixação de dunas. Como é frequente em muitas outras situações, as populações foram-se mantendo relativamente estáveis (desde que as condições ecológicas assegurem a integridade do ambiente «nativo»). Após vários incêndios, o último dos quais de grandes dimensões, em 1995, aumentou exponencialmente a área ocupada por acácia-de-espigas.
Como e desde quando está a ser combatido o problema?
Basicamente através de corte mecânico de acácia-de-espigas durante acções pontuais por parte da reserva. Há planos para o futuro, estando-se a preparar candidaturas. Este tipo de estratégia (corte mecânico) é o mais comum, mas acaba por não se revelar eficaz a curto prazo, constituíndo ainda um encargo financeiro muito relevante e insustentável. Outra estratégia – frequentemente em conjunto com o corte mecânico – é a utilização de herbicidas. Mas também não é uma solução eficaz e duradoura, e, por outro lado, tem impactos ambientais não negligenciáveis.
Estão a ser obtidos resultados?
Algumas áreas esporádicas, com expansão de invasão por acácia-de-espigas inferior, obtiveram resultados relativamente satisfatórios. Outras áreas controladas foram reinvadidas rapidamente após controlo mecânico.
Este é um problema antigo e recorrente. Não é possível eliminá-lo de vez?
A eliminação completa (erradicação) é muito dificil. Pode falar-se de controlo bem sucedido, com redução das áreas invadidas para níveis não problemáticos, a médio/longo prazo, se integrarmos controlo mecânico e biológico. O método mais eficaz a curto prazo é a prevenção da invasão, o que não se faz em Portugal, lamentavelmente.
A invasão por acácias é um problema noutras zonas do país?
É, no caso da acácia-de-espigas, principalmente em zonas costeiras, aparecendo também dispersa noutros locais. Outras espécies de acácia muito problemáticas são a pior mimosa (Acacia dealbata), seguida de austrálias (Acacia melanoxylon), sobretudo em áreas de montanha. Várias áreas com estatuto de protecção estão invadidas por acácia e em níveis incontroláveis.
Há um projecto em curso desde abril de 2002. Em que consiste?
Trata-se de um projecto financiado pela Fundação Ciência e Tecnologia, em que participam o Instituto do Mar da Universidade de Coimbra, a Escola Superior Agrária de Coimbra e o Instituto de Conservação da Natureza. O projecto inclui cinco tarefas principais, nomeadamente o estudo do potencial de recuperação em áreas onde se removeu acácia-de-espigas, a nível de flora, solo e banco de sementes, o estudo de metodologias de controlo mecânico e biológico, a educação ambiental, a cartografia da evolução das áreas invadidas por acácia-de-espigas e a elaboração de proposta de gestão do problemas das plantas invasoras na Reserva Natural das Dunas de S. Jacinto.
Que resultados foram já obtidos?
O controlo mecânico isolado não apresenta resultados satisfatórios, devido à elevada germinação de sementes e por vezes rebentação por touça, que promove a rápida reinvasão das áreas controladas. O acacial antigo tem menos espécies e mais sementes de acácia-de-espigas. A recuperação após o corte revela presença de algumas espécies vegetais características do sistema, mas também espécies invasoras (acácia-de-espigas, chorão-das-praias e erva-das-pampas) e algumas oportunistas. Nota-se também um banco de sementes de espécies nativas muito empobrecido em áreas invadidas há muito tempo. A acácia-de-espigas tem efeitos a nível do solo, alterando significativamente parâmetros a nível químico e microbiológico.
No âmbito do projecto está prevista a realização de testes de controlo biológico da propagação da acácia, em colaboração com a Universidade do Cabo, África do Sul, de onde será importado um insecto predador daquela planta. Em que consiste este método e quando será implementado?
«Trichilogaster acaciaelongifoliae» é uma vespa de três milímetros que deposita os ovos nas gemas florais e vegetativa da acácia-de-espigas, formando galha e impedindo a formação de sementes e diminuindo o crescimento. É um agente de controlo biológico mono-específico. A data prevista para o início testes é Novembro.
Vai ser realizado em São Jacinto?
S. Jacinto não tem condições de quarentena que permitam a realização dos testes. Os testes vão ser realizados na Escola Superior Agrária de Coimbra, onde se estão a desenvolver as condições de segurança que permitem a realização dos testes de especificidade em quarentena.
Rui Cunha |
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