|
NOTÍCIAS |  | | 06-06-2004
| Dia D – lutar ou capitular
| | Pedro Jordão |
| | Qualquer acto violento é estúpido por natureza. Todavia, ainda mais estúpido e imensamente imoral e repugnante é ver um torcionário que massacra violentamente o seu povo ou outros povos e não intervir para parar esse sofrimento, pela persuasão se possível mas pela força se, in extremis, outra alternativa não for exequível.
Desde tempos antigos a humanidade sente o trauma de, por mais que lhe custe tal reconhecer, existirem ditadores e bárbaros que fazem deliberadamente sofrer inocentes e que não são convencíveis nem paráveis pela persuasão, pela palavra, pela pressão económica ou política. Como gente de bem, gostamos de acreditar que qualquer ditador, criminoso ou torcionário é, enquanto ser humano, passível de ser demovido pela palavra. O imperfeito mundo real demonstra-nos que assim não é.
Porque existem situações limite em que a agressão e o sofrimento só podem ser parados com o uso da força, as forças policiais estão armadas, porque muitos ladrões, violadores e assassinos tendem a não obedecer à boa educação de quem lhes solicita que não cometa crimes. Num plano mundial da criminalidade a natureza humana revela as mesmas perversões, apenas em escala muito maior, do que decorre que as forças armadas tenham que existir, porque em situações limite é impossível virar a cara e deixar que inocentes sejam deliberadamente massacrados.
Não podemos ser aventureiros, mas não podemos ser cobardes. Esperamos que o destino nunca nos coloque perante um drama imposto por um criminoso, um violador, um assassino ou um qualquer carniceiro como Hitler, Saddam Hussein, Pinochet, Pol Pot, Mao, Enver Hoxha, Bokassa ou Mussolini. Esperamos que, mesmo assim, eles cedam perante a persuasão. Mas se tudo o resto não se revelar eficiente, seria uma vergonha, uma imoralidade, uma cobardia e uma imensa desumanidade não intervir pela força quando só ela resta. Porque, entretanto, em cada minuto em que se discute em pantufas ou a beber uma cerveja, homens, mulheres e crianças estão a sofrer horrores.
Há 60 anos, num período em que Portugal era neutral e os franceses conheceram um governo colaboracionista, o terror nazi espalhava sofrimento e horror. A esmagadora força militar de Hitler aterrava países sucessivos, espalhando uma sombra de medieval barbárie que provavelmente continuaria sem limite na Europa, continente que hoje poderia ser nazi se, nessa altura, todos defendessem a ideia de não enviar forças policiais ou militares contra um regime que esmagava a dignidade e a liberdade. Mas não somos hoje governados por nazis a partir de Berlim. Apenas porque alguém os enfrentou, por nós lutou e por isso morreu.
Os militares que desembarcaram na praia Omaha, na Normandia, usaram força, que libertaria um continente de gente predominantemente pacífica. Cada um desses militares era um indivíduo como cada um de nós, com família, emprego, aulas, contas para pagar, esperanças e projectos, alegrias e desilusões.
Na sua vasta maioria vindos do longínquo continente americano para combater uma guerra que massacrava europeus, esses indivíduos, no essencial iguais a cada um de nós, embarcaram nos transportes que os levariam à costa da Normandia. Enquanto alguns hoje entendem que uma força policial ou um militar não deve ser enviada para um local de risco, como se não fosse para essas situações limite que a sociedade também delas necessita, aqueles homens, cuja média de idades não atingia os 20 anos, sabiam, enquanto atravessavam o mar em direcção às praias, que dentro de minutos muitos estariam mortos.
Não iam enfrentar um pequeno país mas uma força militar absolutamente impressionante. Esses homens combateram pelos nossos avós e herdámos deles uma sociedade livre e digna no presente.
Mas, no final desse Dia-D, 10.000 desses homens com vidas vulgares haviam morrido por todos nós. Numa Companhia, por exemplo, 96% dos homens tinham morrido passados 15 minutos.
Talvez para alguns, hoje, constatar que uma intervenção para derrubar um carniceiro dos nossos dias causa centenas de mortos entre norte-americanos é algo surrealista, especialmente quando se entende que ninguém deve ser enviado para situações de risco. A Europa foi libertada da barbárie nazi porque alguém pensou o contrário e teve a coragem para se arriscar e morrer para salvar outros.
Depois da matança que sofreram nessa praia da Normandia esses homens, essencialmente vindos de fora da Europa continental, poderiam ter regressado após o trauma dessas horas. Nem assim desistiram. Seguiram-se 11 meses em que sofreram horrores e mortes, até derrubarem o regime de Hitler e ocuparem Berlim. Batalhas arrasadoras ainda os esperavam. Não desistiram. A actual liberdade dos franceses renasceu quando, após 2 meses de mortes desses homens estrangeiros, eles atingiram e libertaram Paris.
Muitos erros foram cometidos, o que é inevitável em situações de relativo caos como as que envolvem qualquer operação armada para derrubar um regime violento. Mas os cidadãos europeus de então, e as suas futuras gerações que nos incluem, devem a sua predominante paz, desde então, à coragem de pessoas simples e vulgares que tiveram a coragem de lutar por nós. E de morrer por nós.
O uso da força será sempre repugnante em si mesma. Mas muito mais repugnante é não lutar contra alguém que com ela massacra, violenta, tortura e pratica deliberados genocídios.
É sempre elegante não sujar as mãos para lutar contra um torcionário. Diz-se “ser pela paz”. Nada mais acéptico. Mas ver o sofrimento de outros por uma acção sádica e deliberada de imposição de sofrimento por um Hitler, Saddam ou Bokassa e não o enfrentar até o derrubar é indigno e sub-humano.
Imagino que seria uma demonstração de demagógico e elegante “pacifismo” que alguém nos Estados Unidos, em Junho de 1940, criticasse o envio de tropas norte-americanas para combater e derrubar um ditador longínquo e que exigisse o regresso dessas tropas por elas “correrem risco”.
Esses homens correram riscos, sim. Foram caminhando sobre o sangue e os corpos despedaçados dos colegas que acabavam de morrer metros à sua frente.
A verdade é que os admiro e os respeito. Porque é a eles, não aos que defenderam a não intervenção, que eu devo ver hoje os meus filhos crescer num Portugal não nazi.
Mas o Dia-D não é apenas uma lição do passado. Continua a ser uma lição do presente. Há poucos anos, no seio da pacífica Europa, populações da Bósnia foram massacradas, barbaramente torturadas, diariamente violadas e horrivelmente humilhadas por similares de Hitler e de Saddam. Que fizeram os europeus para os defender e imediatamente parar esse genocídio e esse indescritível sofrimento? Para além de palavras e banalidades, não fizeram nada. Nada. Nada mais “pacífico”. Nada mais repugnante e desumano.
Os europeus assim permaneceram, cruelmente, durante 3 anos e meio. Até que homens vindos do outro lado do Atlântico informaram os europeus que, se estes nada faziam para parar essa barbárie, eles não suportavam vê-la sem tentar pará-la. Depois da vergonhosa e cobarde apatia dos europeus durante mais de 3 anos de horrores diários de inocentes, os norte-americanos estavam na Bósnia 3 semanas depois. Também aí morreram.
Obviamente, como europeu, eu gostaria de ter a certeza de que, se um dia formos ameaçados por uma qualquer nova opressão violenta, outros europeus (não os norte-americanos) nos libertarão com a coragem de enfrentar riscos e, eventualmente, a morte. A terrível dúvida que persiste e que múltiplos exemplos tristemente fundamentam é a de saber se não terão que ser outros homens, vindos do exterior da Europa continental, que terão a coragem de o fazer.
Pacifismo não é olhar elegantemente a barbárie. É evitar que ela exista e, quando ela infelizmente exista, lutar para a derrubar. Outros seres humanos dependem de nós para isso. Virar a cara é uma vergonha e uma desumanidade. Com sensatez mas com coragem. Sem aventureirismos mas com determinação.
Pedro Jordão |
|  |
|
|
|
|
|
 |
|
|