A HORA POLÍTICA

É que o-país-é-mesmo-de-todos! E não há governo nenhum (seja com que percentagem for) que resolva os problemas de um país se os seus habitantes não recriarem a disposição a mexer, renovar, re-povoar. Só o clima de exigência e educação integral fará regressar a capacidade empenhativa em criar uma sociedade com alicerces, por isso, com solidez de futuro.

Cartazes, blogues, “choques”, comícios e boatos?! Num frente-a-frente lúcido entre os que dinamizam a actividade política e os expectantes cidadãos, a política nunca poderá ser espectáculo (egocêntrico), terá de ser sempre “serviço comunitário”autêntico para irmos a algum lado... Vivemos a “hora” política. Mais que nunca, os partidos e candidatos estão sob observação atenta da sociedade civil que, além de preocupada com o sobrevivente ganha-pão, estará farta do “entretenimento oco” crescente que reinou / reina em muitas intervenções campanhísticas. Muitos alertas, pelos diversos quadrantes da sociedade, foram lançados. A expectativa de uma civilização política que honre tão nobre e essencial serviço público, terá de passar pela mais simples educação e respeito. Será possível ouvir um candidato de cada vez?! Teremos de recriar um sistema auditivo para tantas vezes ouvirmos tudo e todos ao mesmo tempo?! A pior ‘coisa’, qual escola de contra-educação, que poderá existir será políticos a degladiarem-se até ao rubro, a ponto da linguagem cortante não dignificar nada nem ninguém, antes pelo contrário, o povo acabar por ter desonra, ‘vergonha’ de ver os ‘primeiros’ do seu país em tal pântano deseducativo não vendo ética nem consistência que suporte o votar em “quê” e em “quem” (?) ? certamente que tal perigoso cenário que pintamos nunca aconteceu nem acontecerá num civilizado país?

Havendo uma desgraduação cada vez maior no “curriculum” dos políticos, a par da desagregação das ideias e do crescente oportunismo (segundo algumas vozes plurais), numa mediatização da “gafe” e “boato” sem precedentes, estamos já na recta final da campanha destas essenciais eleições. Os políticos, num sentido autêntico do conceito, correm também perigos nunca antes tão sentidos na pele. O povo, melhor a classe-média (em vias de?), venha quem vier, tem medo e indiferença(?). Medo, pela garantida dificuldade na vida diária, onde o milagre político nunca virá solucionar os graves problemas estruturas de um país (litoralizado) que foi acumulando vícios, escravos compadrios (são sempre os mesmos), incapacidade de reforma global,? Indiferença (?, infelizmente) pelo cansaço do ineficiente discurso político, onde na super ocupação exigente de ganhar o pão diário e na falta de tempo para a participação cívica, soa a gritante a promessa fácil de quem em campanha vislumbra mundos e fundos num mar de rosas. Nesta campanha estará em causa um relevante desafio à seriedade e dignidade, onde nos perguntamos: qual o lugar da Verdade na política? Qual a real e pressuposta “visão de conjunto” da sociedade portuguesa (do seu sentir e pensar)? Que ocorrerá depois das eleições, que existirá tacticamente escondido na ‘sombra’? Será que no essencial nacional tudo (o que virá a ser decidido nos próximos quatro anos) está a ser debatido em programas eleitorais??

Os avisos da atenção redobrada à campanha foram imensos. O país estava na expectativa, mas a pré-campanha (confirmou a suspeita) e a campanha (até ao silêncio dedicado à memória da Irmã Lúcia) provou o pior. Que soluções para um agarrar de novo paradigma de respeitabilidade cívica da parte dos políticos de modo que o essencial no debate não seja esquecido? Trocar a Educação, Justiça, Saúde pela birra do combate pessoal?! Ideias sérias ou ataques pessoais?! Ou inventar um caderno (com exame) ético para todos os cidadãos candidatos a deputados, como forma a purificar o parlamento?! Por toda a conjuntura onde (infelizmente) a “ideia” se subjugou à contabilística economia, o apelo à elevação ética nestes dias será o mínimo olímpico exigível. Pobres, vendidos à Europa e ceramizados pela China, mas ao menos dignos (dirá muito do nosso povo)!

A arte de governar, nobreza de gestão do bem comum, será sempre tarefa de fronteiras difíceis, onde, por melhor que seja a boa vontade, é sempre limitada a melhor opção em consciência. Não interessará prometer o ‘sangue, suor e lágrimas’ (de W.Churchill), não um iludir da realidade, passando-a para a fácil ficção entusiasta primária, não o lavar as mãos em assuntos de todos (pois os partidos de governo que prometem são os mesmos que prometeram no passado e??). Talvez, a arte de criar alguns consensos essenciais, o inventar (com pactos em áreas chave nacionais) uma esperança realista, uma capacidade de criar envolvências e educação comunitária que quebre a ideia do “xico esperto”, da “cunha”, da “fuga ao”,? É que o-país-é-mesmo-de-todos! E não há governo nenhum (seja com que percentagem for) que resolva os problemas de um país se os seus habitantes não recriarem a disposição a mexer, renovar, re-povoar. Só o clima de exigência e educação integral fará regressar a capacidade empenhativa em criar uma sociedade com alicerces, por isso, com solidez de futuro. Estará isto em perigo?...

Um “pela rama de ideais”, que vai chegando à mais alta política, faz com que, em vez de ideias consistentes, sejam as ‘vírgulas’ o assunto essencial do debate. A “hora” política que vivemos terá de ser esclarecedora e oportunidade do “choque cívico de responsabilidade social da parte de todos”; “choque” absolutamente participativo nas urnas, onde a sociedade civil, no seu sentir e pensar, é que comandará o destino do país e não algumas falsas liberdades a serem donas e senhoras do futuro, iludindo muito pensamento das novas gerações?

Que a cultura (e onde ela falta que espevite!) do povo desperte para o país que tem nas mãos! O silêncio, indiferença, é o pior! Que o voto político não seja a óptica do limitadíssimo mal-menor, mas do melhor-possível. Tal visão também quer depender das palavras e ideias dos últimos dias de campanha, onde é urgente afastar o ruído perturbador alienante que tem reinado. Talvez mais algum sereno silêncio (da partida da Irmã Lúcia) também faça bem, dando mais profundidade à lucidez na gestão da ‘coisa’ (res-pública), num autêntico serviço ao bem-comum! Para os cidadãos, é claro, o primeiro passo, direito/ dever, desta noção será participar votando em consciência no dia 20. Até porque quem não o fizer, não honra o sangue derramado para que a liberdade com responsabilidade (votante) seja a essencial marca cívica do nosso tempo. Ao cidadão, só é possível ir-votar!

Alexandre Cruz*
*Centro Universitário da Fé e Cultura
Diário de Aveiro



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